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Nos primórdios da colonização ibérica do nosso continente, ‘brasileiro’ era a denominação que recebia o traficante de pau-brasil. Da mesma forma, chamavam-se ‘baleeiros’ aqueles que caçavam baleias. Por mero acaso, nós, brasileiros, não nascemos num país chamado Baleia. Talvez não por acaso e, sim, devido às condições climáticas que propiciaram o florescimento de tamanha exuberância natural nas nossas florestas. Mérito, também, dos nativos que aqui viviam. O imenso território que hoje chamamos Brasil foi, durante vários milênios, habitado por inúmeras e distintas nações indígenas, cada qual mantendo relações vitais intrínsecas com as especificidades do seu ambiente de origem. Historicamente, o Brasil caracteriza-se como sendo um país agroexportador de matéria-prima, cujos cultivos variam conforme as leis de mercado: café, cana-de-açúcar, soja, pinus, eucalipto, mamona... Nossa estrutura fundiária ainda apresenta resquícios coloniais, onde alguns poucos empresários detêm a posse da maior parcela do território, ao passo que uma multidão de camponeses tenta sobreviver através da agricultura familiar cultivando meia-dúzia de hectares cada um. Endividados, os campesinos são induzidos a vender suas pequenas propriedades de terra e acabam migrando para as regiões periféricas dos grandes centros urbanos, somando para o aumento da pobreza e da violência subseqüente. Enquanto isso, nos meios de comunicação de massa, os economistas comemoram o ‘sucesso’ do agrobusiness, argumentando que o lucro gerado pelas monoculturas movimenta a Economia e contribui para a obtenção do superávit primário. De quê adianta movimentar a Economia, se o lucro aqui gerado é mensalmente remetido ao exterior? De quê adianta superávit primário se este lucro pertence a alguns poucos empresários, e não ao povo baleeiro? Digo, brasileiro. Tanto faz a denominação, afinal, o Governo até hoje permite que as empresas tratem nossos recursos naturais como bem entender. Recentemente a Petrobrás anunciou a descoberta de um gigantesco campo petrolífero na Bacia de Santos e, logo depois, abriu licitações para que as empresas transnacionais extraiam o petróleo brasileiro. Ora, contentar-se com as irrisórias alíquotas sobre a exploração do petróleo só demonstra a nossa total falta de ambição enquanto cidadãos. Por que a própria estatal não gere todas as etapas do processo de extração, em vez de disponibilizar grande parte dos petrodólares a qualquer investidor estrangeiro interessado em lucrar sobre a nação? Frente ao atual contexto agrário onde a quase totalidade das matas ciliares foi substituída pelo cultivo de soja transgênica, cabe ao poder público intervir construtivamente no território brasileiro, buscando amenizar a gradativa redução da biodiversidade e reparar, em parte, a histórica injustiça praticada contra as nações indígenas. Todos seriam beneficiados caso o Estado disponibilizasse as áreas de matas ciliares para que os indígenas cultivem espécies nativas e revitalizem nosso ambiente, interligando tais áreas através de corredores ecológicos que possibilitariam a evolução orgânica da vida natural. Os Kaingang, por exemplo, cuja dieta alimentar foi sempre baseada no pinhão, poderiam muito bem agir em prol da regeneração da Floresta com Araucárias. Se, em vez das habituais monoculturas de pinus e eucalipto visando a produção de celulose, nós plantássemos araucárias e demais espécies nativas em sistemas agroflorestais, estaríamos contribuindo tanto para a obtenção da sustentabilidade Kaingang, como principalmente para regeneração ambiental. Com isso, os Kaingang poderiam criar uma cooperativa de industrialização de pinhão, produzindo massas, pães e demais condimentos preparados a partir da semente da araucária. É interessante ressaltar que, plantando-se soja na área originalmente ocupada por uma araucária, produz-se uma quantidade seis vezes menor de proteínas do que se houvéssemos coletado os pinhões. Antigamente, os nativos conservavam o pinhão colocando-o em cestos de taquara impermeabilizados com cera de abelha-mirim, os quais eram depositados no fundo de rios e banhados. Quando então necessitavam de alimento, retiravam os pinhões, os socavam na mão-de-pilão e, a partir dessa farinha, fabricavam saborosos e nutritivos pães. Do mesmo modo que os Kaingang apresentam maior capacidade de gerir a Floresta com Araucárias do que qualquer outra pessoa, os Guarani caracterizam-se como os mais aptos a revitalizar as áreas de Mata Atlântica, pois sua cultura encontra-se enraizada neste bioma. Nada mais justo que devolver a posse das veias terrestres aos seus legítimos proprietários. Proprietários, esses, cujos filhotes atualmente rastejam pelas sujas calçadas dos centros urbanos, disputando alimentos com ratos e baratas, enquanto suas mães vendem artesanato em bancas de camelô. Sabe-se lá por quais razões, o conceito de sustentabilidade que comumente empregamos nas políticas indigenistas brasileiras sentencia que os índios estão fadados a eternamente vender artesanato nas metrópoles e em acostamentos de auto-estradas. Esquecemo-nos, ou ignoramos, que sustentabilidade significa produzir o próprio alimento e atender as nossas demandas fisiológicas básicas, independentemente da cotação do petróleo, da queda na Bolsa ou da falência de alguma transnacional. As alternativas viáveis para reverter esta lamentável situação são inúmeras, falta somente empenho e objetividade por parte do poder público e dos órgãos responsáveis. O Governo Federal gasta, anualmente, vários milhões de reais para manter em atividade a estrutura institucional da FUNAI, cuja atuação junto aos silvícolas resume-se basicamente à assistência judicial e análises antropológicas. O quadro de funcionários da Fundação Nacional do Índio encontra-se repleto de antropólogos e burocratas que não interferem construtivamente no cotidiano indígena. O que os sobreviventes do holocausto indígena necessitam não é servir de matéria-prima para teses e dissertações acadêmicas que apenas analisam seu passado. Eles precisam é de engenheiros agrônomos e gestores rurais que os auxiliem a cultivar organicamente suas terras e a criar cooperativas, seja de artesanato ou de industrialização de alimentos. Contribuiria bastante, neste sentido, se repassássemos o orçamento da FUNAI diretamente aos caciques das aldeias, proporcionando-lhes autonomia para decidir seus próprios rumos. Cada nação indígena deveria ter, no mínimo, um representante em toda e qualquer instância governamental do país, em vez de ser legalmente representada pela FUNAI. Diante da dificuldade em se fazer justiça ao eleger igualmente um deputado entre os euro-descendentes, um entre os afro-descendentes, um da nação Kaingang, um da nação Guarani, um da Xavante, um da Tapuia, um da Kamaiurá, um da Kuikuro, um da Yawalapiti... urge a necessidade de fundação de um Partido Indigenista. Segundo estimativas, a atual população indígena no Brasil é de aproximadamente 600 mil pessoas. Certamente, com este número de eleitores, ao menos um cacique seria eleito deputado para lutar a favor da causa deles e contra o descaso com que tratamos os recursos naturais. [1] Estuda Geografia na UFRGS. Recebeu o Prêmio Coleção 2000, do Instituto Estadual do Livro - RS, pela primeira novela. Foi um dos vencedores do Prêmio Teixeira e Souza de Literatura de 2007, participou de algumas antologias poéticas, é colunista do Jornal Tribuna das Cidades, com sede em Cruz Alta, colaborador da Via Política, tem artigos publicados na revista Caros Amigos, na Varanda Cultural e em diversos jornais, como o Sul de Minas, Página 20 (AC), A Crítica de Rondônia, Zero Hora (RS), A Notícia (Joinville), A Voz de Ermesindee Jornal das Freguesias, ambos de Portugal, e outros mais... |
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