2008/03/08
O indígena como agente revitalizador ambiental
Fernando Baggio di Sopra[1] (Brasil)

Nos primórdios da colonização ibérica do nosso continente, ‘brasileiro’ era a denominação que recebia o traficante de pau-brasil. Da mesma forma, chamavam-se ‘baleeiros’ aqueles que caçavam baleias. Por mero acaso, nós, brasileiros, não nascemos num país chamado Baleia. Talvez não por acaso e, sim, devido às condições climáticas que propiciaram o florescimento de tamanha exuberância natural nas nossas florestas. Mérito, também, dos nativos que aqui viviam. O imenso território que hoje chamamos Brasil foi, durante vários milênios, habitado por inúmeras e distintas nações indígenas, cada qual mantendo relações vitais intrínsecas com as especificidades do seu ambiente de origem.

Historicamente, o Brasil caracteriza-se como sendo um país agroexportador de matéria-prima, cujos cultivos variam conforme as leis de mercado: café, cana-de-açúcar, soja, pinus, eucalipto, mamona... Nossa estrutura fundiária ainda apresenta resquícios coloniais, onde alguns poucos empresários detêm a posse da maior parcela do território, ao passo que uma multidão de camponeses tenta sobreviver através da agricultura familiar cultivando meia-dúzia de hectares cada um. Endividados, os campesinos são induzidos a vender suas pequenas propriedades de terra e acabam migrando para as regiões periféricas dos grandes centros urbanos, somando para o aumento da pobreza e da violência subseqüente.

Enquanto isso, nos meios de comunicação de massa, os economistas comemoram o ‘sucesso’ do agrobusiness, argumentando que o lucro gerado pelas monoculturas movimenta a Economia e contribui para a obtenção do superávit primário. De quê adianta movimentar a Economia, se o lucro aqui gerado é mensalmente remetido ao exterior? De quê adianta superávit primário se este lucro pertence a alguns poucos empresários, e não ao povo baleeiro? Digo, brasileiro. Tanto faz a denominação, afinal, o Governo até hoje permite que as empresas tratem nossos recursos naturais como bem entender.

Recentemente a Petrobrás anunciou a descoberta de um gigantesco campo petrolífero na Bacia de Santos e, logo depois, abriu licitações para que as empresas transnacionais extraiam o petróleo brasileiro. Ora, contentar-se com as irrisórias alíquotas sobre a exploração do petróleo só demonstra a nossa total falta de ambição enquanto cidadãos. Por que a própria estatal não gere todas as etapas do processo de extração, em vez de disponibilizar grande parte dos petrodólares a qualquer investidor estrangeiro interessado em lucrar sobre a nação?

Frente ao atual contexto agrário onde a quase totalidade das matas ciliares foi substituída pelo cultivo de soja transgênica, cabe ao poder público intervir construtivamente no território brasileiro, buscando amenizar a gradativa redução da biodiversidade e reparar, em parte, a histórica injustiça praticada contra as nações indígenas. Todos seriam beneficiados caso o Estado disponibilizasse as áreas de matas ciliares para que os indígenas cultivem espécies nativas e revitalizem nosso ambiente, interligando tais áreas através de corredores ecológicos que possibilitariam a evolução orgânica da vida natural.

Os Kaingang, por exemplo, cuja dieta alimentar foi sempre baseada no pinhão, poderiam muito bem agir em prol da regeneração da Floresta com Araucárias. Se, em vez das habituais monoculturas de pinus e eucalipto visando a produção de celulose, nós plantássemos araucárias e demais espécies nativas em sistemas agroflorestais, estaríamos contribuindo tanto para a obtenção da sustentabilidade Kaingang, como principalmente para regeneração ambiental. Com isso, os Kaingang poderiam criar uma cooperativa de industrialização de pinhão, produzindo massas, pães e demais condimentos preparados a partir da semente da araucária.

É interessante ressaltar que, plantando-se soja na área originalmente ocupada por uma araucária, produz-se uma quantidade seis vezes menor de proteínas do que se houvéssemos coletado os pinhões. Antigamente, os nativos conservavam o pinhão colocando-o em cestos de taquara impermeabilizados com cera de abelha-mirim, os quais eram depositados no fundo de rios e banhados. Quando então necessitavam de alimento, retiravam os pinhões, os socavam na mão-de-pilão e, a partir dessa farinha, fabricavam saborosos e nutritivos pães.

Do mesmo modo que os Kaingang apresentam maior capacidade de gerir a Floresta com Araucárias do que qualquer outra pessoa, os Guarani caracterizam-se como os mais aptos a revitalizar as áreas de Mata Atlântica, pois sua cultura encontra-se enraizada neste bioma. Nada mais justo que devolver a posse das veias terrestres aos seus legítimos proprietários. Proprietários, esses, cujos filhotes atualmente rastejam pelas sujas calçadas dos centros urbanos, disputando alimentos com ratos e baratas, enquanto suas mães vendem artesanato em bancas de camelô. Sabe-se lá por quais razões, o conceito de sustentabilidade que comumente empregamos nas políticas indigenistas brasileiras sentencia que os índios estão fadados a eternamente vender artesanato nas metrópoles e em acostamentos de auto-estradas. Esquecemo-nos, ou ignoramos, que sustentabilidade significa produzir o próprio alimento e atender as nossas demandas fisiológicas básicas, independentemente da cotação do petróleo, da queda na Bolsa ou da falência de alguma transnacional.

As alternativas viáveis para reverter esta lamentável situação são inúmeras, falta somente empenho e objetividade por parte do poder público e dos órgãos responsáveis. O Governo Federal gasta, anualmente, vários milhões de reais para manter em atividade a estrutura institucional da FUNAI, cuja atuação junto aos silvícolas resume-se basicamente à assistência judicial e análises antropológicas. O quadro de funcionários da Fundação Nacional do Índio encontra-se repleto de antropólogos e burocratas que não interferem construtivamente no cotidiano indígena. O que os sobreviventes do holocausto indígena necessitam não é servir de matéria-prima para teses e dissertações acadêmicas que apenas analisam seu passado. Eles precisam é de engenheiros agrônomos e gestores rurais que os auxiliem a cultivar organicamente suas terras e a criar cooperativas, seja de artesanato ou de industrialização de alimentos. Contribuiria bastante, neste sentido, se repassássemos o orçamento da FUNAI diretamente aos caciques das aldeias, proporcionando-lhes autonomia para decidir seus próprios rumos.

Cada nação indígena deveria ter, no mínimo, um representante em toda e qualquer instância governamental do país, em vez de ser legalmente representada pela FUNAI. Diante da dificuldade em se fazer justiça ao eleger igualmente um deputado entre os euro-descendentes, um entre os afro-descendentes, um da nação Kaingang, um da nação Guarani, um da Xavante, um da Tapuia, um da Kamaiurá, um da Kuikuro, um da Yawalapiti... urge a necessidade de fundação de um Partido Indigenista. Segundo estimativas, a atual população indígena no Brasil é de aproximadamente 600 mil pessoas. Certamente, com este número de eleitores, ao menos um cacique seria eleito deputado para lutar a favor da causa deles e contra o descaso com que tratamos os recursos naturais.

[1] Estuda Geografia na UFRGS. Recebeu o Prêmio Coleção 2000, do Instituto Estadual do Livro - RS, pela primeira novela. Foi um dos vencedores do Prêmio Teixeira e Souza de Literatura de 2007, participou de algumas antologias poéticas, é colunista do Jornal Tribuna das Cidades, com sede em Cruz Alta, colaborador da Via Política, tem artigos publicados na revista Caros Amigos, na Varanda Cultural e em diversos jornais, como o Sul de Minas, Página 20 (AC), A Crítica de Rondônia, Zero Hora (RS), A Notícia (Joinville), A Voz de Ermesindee Jornal das Freguesias, ambos de Portugal, e outros mais...

 
64 Textos Relacionados:
2010/06/13
Poder Aéreo: Recurso da Moderna Coerção Militar
Mauro Barbosa Siqueira (Brasil)
2010/06/09
A Insensatez dos Sem-Limites (ou a ausência delimites na acção dos insensatos)
Vânia L. Cintra (Brasil)
2010/06/02
O Acordo de Teerão
Oliveiros S. Ferreira (Brasil)
2010/05/24
A mediação brasileira no conflito com o Irão
Alexandre Reis Rodrigues
2010/04/27
Poder Aeroespacial Brasileiro: Dissuasão e Segurança, Coerção como Medida Eficaz à Defesa Nacional
Mauro Barbosa Vieira (1) (Brasil)
2010/04/26
Brasil potência − realidade ou mito?(III Parte)
Oliveiros S. Ferreira[1] (Brasil)
2010/04/14
Acordo militar Brasil – EUA: a região quer respostas
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2010/04/09
Armamentismo regional será tema em assembleia da OEA
Marcelo Rech Brasil)
2010/04/03
Brasil potência – realidade ou mito? (II Parte)
Oliveiros S. Ferreira[1] (Brasil)
2010/03/30
Brasil potência – realidade ou mito?
Oliveiros S. Ferreira[1] (Brasil)
2010/03/18
Concertação política em matéria de defesa na América do Sul no pós - Guerra Fria
Leandro Leone Pepe[1] (Brasil)
2010/03/17
Plagiando García Marquez ou Resumo da Ópera em bom Português
Vânia L. Cintra[1] (Brasil)
2010/03/12
Os Programas Nucleares do Brasil e do Irão: Pontos de Tangência e Afastamento
Marcos Machado da Silva[1](Brasil)
2010/01/10
Batalha da usura
Oliveiros S. Ferreira[1] (Brasil)
2009/12/18
Que fazer com ... nossas autoridades, por exemplo?
Vânia L. Cintra (Brasil)
2009/11/29
Brasil, novo participante na discussão do problema nuclear do Irão?
Alexandre Reis Rodrigues
2009/11/28
Os computadores estão conectados
Oliveiros S. Ferreira[1](Brasil)
2009/11/20
Israelenses, palestinos e iranianos disputam a atenção brasileira
Diogo Alves[1] (Brasil)
2009/11/15
Itaipu, usina binacional
Fernando Ernesto Baggio[1] (Brasil)
2009/11/14
Compromissos brasileiros com a globalização: as operações de paz?
Oliveiros S. Ferreira (Brasil)
2009/10/22
As manhas do quarto cavaleiro do Apocalipse
Oliveiros S. Ferreira[1] (Brasil)
2009/10/19
Entre necessidades e virtudes[1]
Oliveiros S. Ferreira[2] (Brasil)
2009/10/01
Considerações sobre o asilo político
Gilberto Barros Lima[1] (Brasil)
2009/09/24
Honduras e o Apocalipse diplomático
Oliveiros S. Ferreira (Brasil) [1]
2009/09/23
Mais uma New Global Order?
Gilberto Barros Lima[1] (Brasil)
2009/07/10
A “Ascensão dos demais”. Os BRIC
Alexandre Reis Rodrigues
2009/07/08
Haiti: os cinco anos da missão
Marcelo Rech[1](Brasil)
2009/06/12
O terror sem limites das FARC
Marcelo Rech (Brasil)[1]
2009/05/07
Cano: discurso e realidade desconectados
Marcelo Rech[1] (Brasil
2009/03/19
Estratégia Nacional de Defesa[1]: comentários dissidentes
Paulo Roberto de Almeida[2] (Brasil)
2009/03/17
A Declaração de Santiago do Chile[1]
Alexandre Reis Rodrigues
2009/03/11
Hezbollah: aliados das FARC
Marcelo Rech[1](Brasil)
2009/01/31
Itaipu: preço justo e ideologia
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2009/01/23
Narcotráfico e terrorismo: aliança estratégica
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2009/01/06
Venezuela, inserção contestatária
Tiago Fernandes Maurício
2008/12/15
Velhos problemas e novos conflitos na Bolívia
Tiago Fernandes Maurício
2008/10/16
Un poder paralelo: el crimen organizado en América Latina[1]
Luis González Manrique (Perú)
2008/10/09
O desmonte das Forças Armadas brasileiras
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2008/10/06
El “etnonacionalismo”: las nuevas tensiones interétnicas en América Latina[1]
Luis González Manrique [2] (Peru)
2008/09/29
Las Fuerzas Armadas como partido político: la nueva “geometría del poder” chavista[1]
Luis González Manrique[2] (Peru)
2008/09/17
Os contingentes das FARC continuam a diminuir
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2008/07/06
Um golpe de morte às FARC
Marcelo Rech[1](Brasil)
2008/06/29
O terrorismo no Peru e a União Europeia
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2008/06/18
FARC: uma ameaça presente nas fronteiras
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2008/04/30
China: Um País, dois Mundos
Fábio Pereira Ribeiro (Brasil)[1]
2008/04/29
Angola: A Nova Riqueza da África e para o Brasil
Fábio Pereira Ribeiro (Brasil)[1]
2008/03/21
A improvável guerra na América do Sul/As FARC e o contexto regional
Marcelo Rech[1] (Brasil)
2008/03/18
Reterritorialização utilizando os biomas como unidades administrativas
Fernando Baggio di Sopra[1] (Brasil)
2008/03/14
A Crise Armada Colômbia-Equador[1]
Tatiana Waisberg[2] (Brasil)
2008/01/25
Casa Grande e Sanzala
Pedro Conceição Carvalho[1]
2007/09/30
A Geopolítica da Sustentabilidade[1]
Irene Maria Nunes[2]
2007/09/11
FARC: terrorismo, bravatas e muito dinheiro
Marcelo Rech[1]
2007/09/10
Inserir a Defesa Nacional na Agenda Política: mais que um Desafio!
Marcelo Rech[1]
2007/07/17
A política externa do governo Lula – uma análise
Bruno Quadros e Quadros[1]
2007/06/28
A importância estratégica da Indústria brasileira de Defesa[1]
Marcelo Rech[2]
2007/06/11
O desporto como factor político internacional[1]
Marcelo Rech[2]
2007/05/18
A Frente Internacional das FARC e a fronteira brasileira [2]
Marcelo Rech[1]
2007/05/11
Brasil e o cinismo das Farc[2]
Marcelo Rech[1]
2007/05/10
Inteligência e Defesa na Tríplice Fronteira: Impactos do último relatório do Departamento de Estado dos EUA para o Brasil
Fábio Pereira Ribeiro[1]
2007/05/02
Serviços de Inteligência e a Defesa da Nação[2]
Fábio Pereira Ribeiro[1]
2007/04/27
Política de Defesa e Inteligência Estratégica: Prioridades para um País como o Brasil [1]
Fábio Pereira Ribeiro[2]
2007/04/20
Política de Defesa: Interesses Nacionais em Jogo
Fábio Pereira Ribeiro[1]
2006/05/07
A nacionalização do gás boliviano e o protagonismo de Chávez [1]
Marcelo Rech [2]
2005/12/09
Cooperação Estratégica Na Formação da Defesa Regional: Uma Contribuição dos Serviços de Inteligência
Fábio Pereira Ribeiro