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Alfonso Cano é o líder máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), cargo que herdou após a morte de Manuel Marulanda há pouco mais de um ano. Quem o ouve acredita que ele é um professor de catequese e não um rebelde que dá as cartas numa das organizações mais cruéis da história latino-americana. No mês de Dezembro, Cano foi entrevistado por Jorge Melgarejo, da revista Câmbio 16, da Espanha. A exemplo do que fez as FARC ao longo das últimas décadas, Cano soube se promover e aos seus ideais mais nobres. Falou em justiça social e paz. Conclamou os colombianos a “trabalharem por acordos humanitários, unidade democrática, mudanças e coexistência”. Insistiu que as FARC buscam uma “solução pacífica para a crise colombiana”. Negou de forma veemente que a organização tenha qualquer envolvimento com o narcotráfico. Afirmou que trata-se de um “movimento popular” na Colômbia. No entanto, são argumentos que não resistem aos fatos. A guerrilha promovida pelas FARC dura há 44 anos e matou milhares de civis inocentes. Durante a maior parte da sua existência, a organização foi liderada por “Tirofijo”, descrito como um estrategista extremamente hábil e um assassino frio. Na entrevista, Alfonso Cano revelou que Marulanda era uma das pessoas mais admiradas por ele. O líder das FARC, cujo nome verdadeiro é Guillermo Leon Saenz Vargas, juntou-se à guerrilha há 30 anos. Antropólogo com diploma universitário e de família de classe média alta, ele ingressou no Partido Comunista de onde saiu para somar-se à guerrilha na selva. Quando indagado sobre a relação das FARC com o narcotráfico, Cano nega irritado quaisquer vínculos com o tráfico de drogas. Chega a afirmar que o narcotráfico é “um câncer que a humanidade precisa exterminar”. Na sua avaliação, os setores público e privado são os responsáveis pelo narcotráfico na Colômbia. Ele finge e dissimula. Certamente, as FARC inibem o uso de drogas entre os seus integrantes, o que não significa que não façam negócios. São duas coisas muito diferentes. O fato objetivo é que os lucros com o narcotráfico permitem às FARC, adquirir armamentos e sustentar o movimento. Diversas áreas produtoras de coca na Colômbia são controladas pela guerrilha. Camponeses administram laboratórios de processamento de drogas e atuam diretamente junto a cartéis da Colômbia e do México. Agora, estão se aliando aos antigos paramilitares da extrema-direita colombiana para proteger as rotas de remessa de drogas para o Brasil, Venezuela e a costa do Atlântico. O envolvimento das FARC com o narcotráfico teve início com Manuel Marulanda e atingiu seu ápice na década de 1990. Atualmente, estima-se que as Farc lucrem de US$ 200 e US$ 300 milhões por ano com o narcotráfico. Esse lucro chegou aos US$ 500 milhões quando a guerrilha vivia seus melhores dias. Ingrid Betancourt que foi mantida refém das FARC nas selvas por seis anos e que conhece bem o movimento, resume a situação atual da organização: “as FARC”, afirma, “são uma organização militar com uma fina camada de verniz político e um pano de fundo de intenso tráfico de drogas e dinheiro fácil”. Na verdade, o dinheiro fácil das drogas representa um sério problema para a guerrilha. Após a morte de Marulanda, os comandantes de algumas das frentes mais importantes, pareciam estar bem mais interessados nos lucros obtidos com o narcotráfico do que com a luta ideológica. Essa situação dificultou a manutenção da disciplina nas FARC e tornou algumas das suas frentes objeto de desconfiança. Cano afirmou ainda para a Câmbio 16 que as FARC vivem sob um regime igualitário, onde ninguém acumula riqueza, recebe salários ou gerencia dinheiro individualmente. Betancourt também contesta essa afirmação: “A estrutura deles é uma pirâmide onde os chefes têm privilégios. Ser chefe significa ter acesso a um computador, um GPS, um celular e mesmo a chance de ter garotas mais bonitas”. Ele acredita que as FARC contam com o apoio da população colombiana, mas nos últimos anos, milhares de pessoas na Colômbia e no mundo inteiro foram às ruas repetidas vezes em manifestações contra a brutalidade e os seqüestros perpetrados por sua organização. As FARC não têm mais o apoio nem mesmo dos seus ex-combatentes. O retrato hoje é de deserção em massa para uma organização que chegou a ter 19 mil combatentes. Talvez já não restem nem mesmo a metade disso. Centenas de guerrilheiros presos não querem ser trocados por reféns, mas ainda assim, Alfonso Cano insiste em contrariar a realidade. [1] Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais e Estratégias e Políticas de Defesa. Correio eletrônico: inforel@inforel.org. |
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