2009/11/20
Israelenses, palestinos e iranianos disputam a atenção brasileira
Diogo Alves[1] (Brasil)

Muitos buscam suas próprias interpretações para compreender as visitas presidenciais que o governo brasileiro recebe no mês de novembro. A estratégia diplomática é receber o presidente de Israel, Shinon Peres, seu arquinimigo, o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, e o líder da autoridade palestina, o presidente Mahmoud Abba, em um curto espaço de tempo. Em realidade, a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e mais, a oportunidade aberta para os interesses nacionais no jogo de xadrez mantido a distância pelo poder de Washington explicam a visita desses personagens do Oriente Médio na capital da República, nessas semanas de novembro.

O Brasil vem renovando suas credenciais diplomáticas, ao longo da gestão Lula, a fim de se habilitar como global player. Nesse sentido, o País procura aproximar-se dos grandes temas debatidos na arena internacional, para além da plataforma de influência que possui na América do Sul. É possível notar que a diplomacia, sob a chancela do ministro Celso Amorim, está galvanizando as relações afro-asiáticas, em direção aos emergentes da ordem internacional multipolar. O papel incisivo nos fóruns internacionais que discutem soluções para a atual crise financeira global, como o Grupo das 20 economias mais pujantes do planeta, é sinal claro dessa nova Era para a política externa brasileira.

Em contrapartida, os Estados Unidos, que foram embalados pelos discursos do então candidato à presidência Barack Obama, andam lentos para concretizar as promessas de política externa. Talvez isso ocorra em decorrência dos assuntos internos em discussão no Congresso, ou dos esforços americanos para sustentar a “Guerra Contra o Terror” no Iraque e no Afeganistão. Brasil e Estados Unidos são parceiros estratégicos, praticamente desde a proclamação da República na terra braziles, e buscam uma agenda de cooperação mais estreita. Chegou o bom pretexto, que começa com Shimon Peres, presidente israelense, e segue até o desembarque do chefe de Estado iraniano, Mahmud Ahmadinejad, em 23 de novembro. O Brasil teve certas decepções, em relação à agenda bilateral. Brasília afastou-se de Washington nos últimos meses. O retorno do protecionismo comercial nos Estados Unidos, o silêncio de Obama nos temas do etanol antes estimulado por George Bush, o uso de bases colombianas por militares norte-americanos, as diferenças de metodologia diplomática no caso da crise de Honduras, um embaixador norte-americano que nunca chega ao Brasil, entre outros aspectos, evidenciam a tendência.

As visitas presidenciais israelenses, palestinas e iranianas evidenciam, conseqüentemente, um bom pretexto para estimular novo padrão de cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil. O governo Lula tem empreendido esforços para viabilizar canais complementares, superando os interesses conflitantes com Washington. Dessa forma, o papel de mediador para a paz no Oriente Médio, entre palestinos e judeus, e um possível diálogo entre Hugo Chavez e Obama são méritos que os Estados Unidos almejem que o Brasil alcance. Esses movimentos avançam a projeção internacional do País como global player.

A exposição externa, com responsabilidades e cálculos estratégicos, é um valor positivo na inserção internacional do Brasil, baseado em valores de tolerância e liderança logrados pela política do governo Lula. Nesse sentido, o ministro Celso Amorim tentará convencer o presidente palestino Mahmoud Abbas candidatar-se a re-eleição e evitar que o grupo guerrilheiro Hamas assuma o poder e deflagre novos conflitos na região. O Brasil ainda irá assinar acordos de cooperação com a autoridade palestina, a fim de promover o desenvolvimento socioeconômico dos palestinos. O Congresso brasileiro aprovou já uma lei, por meio da qual os cofres públicos irão financiar 25 milhões de reais em assentamentos palestinos.

A visita do presidente iraniano, por sua vez, confirma o interesse do país em impulsionar investimentos de empresas iranianas no setor agrícola brasileiro, sendo esta uma das 15 áreas de cooperação que Ahmadinejad pretende estimular. A ideia é de que empresas privadas iranianas formem joint ventures com brasileiras para a produção de soja, milho e etanol. A produção não teria apenas o objetivo de suprir o mercado iraniano, mas também o de atender a demandas de outros países. Devem ser assinados, ainda, um acordo de isenção de vistos diplomáticos, um acordo de cooperação técnica, um memorando de entendimento entre a Embrapa e a empresa iraniana de pesquisa agropecuária e um programa executivo na área da cultura. Os Estados Unidos também esperam que Lula converse com Ahmadinejad sobre o caso dos três americanos detidos no Irã, acusados de espionagem.

A visita de Shimon Peres, a primeira de um lider judeu ao Brasil, também marca o aprofundamento das relações bilaterais. O presidente de Israel firmou vários acordos de cooperação, encontrou-se com autoridades nacionais e com membros da comunidade judia no Brasil, além de propor auxílio a projetos de segurança para os Jogos Olímpicos de 2016. Shimon Peres ressaltou a experiência que seu país possui em tecnologia de segurança e telecomunicações (Israel colaborou com a organização das Olimpíadas na Grécia, em 2004, e na China, em 2008).

O Brasil abriga uma grande comunidade muçulmana e judia que, no campo dos valores de relações internacionais, demonstra como a convivência tolerante de contrários ainda é possível no mundo em que vivemos. E, finalmente, como a política internacional não é feita apenas de diplomacia e valores. É preciso enaltecer que o mesmo capitalismo brasileiro que se anima com os projetos de infra-estrutura e investimentos na América do Sul e com a diversificação da expansão comercial para a África e Ásia, já tem a região do Oriente Médio como uma área importante de retomada de negócios. Várias são as empresas brasileiras que fazem negócios na região, com destaque para a Petrobrás. Fecha-se, portanto, o ciclo das oportunidades e dos cálculos, próprio a um país que começa a avançar para sua maturidade internacional.

[1] Analista político da Embaixada do Reino da Arábia Saudita e mestrando em Direito Internacional pelo Centro Universitário de Brasília.

 
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